O som das letras

Textos. Apenas textos escritos por mim e por música. A música das letras.



Comments: Segunda-feira, Outubro 30, 2006

VIDA

Mais uma noite em claro,
Mais um chopp escuro.

E como se não bastasse,
O sol nasce
A lua desce
O seu cresce
E tu renasces.

Eu, tu, ele, nós, vós, eles.
De todas as pessoas a que eu mais gosto é a segunda, já que a 1ª sou eu e a 2ª és tu, que já ela e hoje é nós. Jamais sois vós e nunca será eles, nem deles.

A noite é dia
O dia é noite
E quando a noite é minha
Ninguém discute.

Mais uma noite em claro,
Mais um chopp escuro.

postado por: HENRIQUE ROJAS 11:18 AM


Comments: Quarta-feira, Outubro 18, 2006

A-GENTE

É difícil de acreditar, mas é verdade: já não se fazem mais espiões como antigamente.

Os agentes secretos de antes tinham um charme todo peculiar, repleto de trejeitos únicos e sacadas inigualáveis. O jeito com que fumavam - cigarro na boca, falando de lado, quase sussurrando -; o olhar conquistador e penetrante que abria portas - e pernas -; o raciocínio rápido e inconfundível de uma raposa sagaz; enfim. As coisas mudaram.

Outro dia fizemos um teste para lapidar novos talentos. Anunciamos secretamente no maior jornal do país, utilizando as iniciais da matéria de capa. Ninguém apareceu. Nem a gente. Dessa vez, então, resolvemos fazer diferente: anunciamos em todos os jornais do país, na parte de classificados, na letra de D de Detetive. Deu certo, exceto pela presença de um dermatologista. Aproveitamos para fazer uma limpeza de pele.

Eram homens distintos, de todos os tipos, credos e cores, espalhados por uma de nossas salas. Quer dizer, quase espalhados, porque as salas são tão pequenas que por menos gente que esteja dentro delas ainda sim ficam apertadas. O primeiro era um senhor de bigode, baixinho, boina e sobretudo. Quando perguntamos seu nome, ele não só disse, como complementou com o sobrenome e a alcunha de sua esposa, filhos e cachorro. Muito secreto.

Na seqüência veio um rapaz jovem, cabelo raspado, um sorriso enigmático de canto de boca e rosto firme - era o nosso homem! Menos de 20 segundos depois sentimos o cheiro e aí então entendemos o porque do sorriso de canto de boca. Enxotamo-os. E assim foi até eu me pegar contando todos os ladrilhos da nova parede colorida que tínhamos comprado sem eu saber. Era um mosaico. E estava na igreja do outro lado da rua.

Certamente era chegada a hora de parar, abandonar, fechar quem sabe. Não havia mais Bonds, não havia mais Agentes 86, não havia sequer Austin Powers. O mercado estava repleto de pseudo-investigadores, delegados de policia e anões bezuntados em azeite. No desespero, inclusive, tentamos utilizar um anão - eles são pequenos, são queridos, lembram fábulas infantis e passam despercebidos com facilidade. Na primeira missão do Agente Meio, ele escorregou e caiu dentro de um ralo. Desistimos da idéia.

Hoje as crianças não crescem mais querendo ser detetives. Os garotos contemporâneos sonham em jogar futebol, fazer jogos de vídeo-game, ganhar na Mega-Sena e participar do Big Brother. Seria inútil esperar o surgimento de alguém nos próximos dois.. séculos. Quando eu era um garoto sonhava em ser um espião, queria ser um espião, brincava de ser espião. Os tempos mudaram.

E com essa escassez de agentes, a gente decidiu procurar mais uma única vez. Colocamos um outdoor na Avenida Paulista. Ou vai ou racha.

postado por: HENRIQUE ROJAS 9:35 AM


Comments: Terça-feira, Outubro 10, 2006

OSCAR

Oscar merecia um Oscar.

Não que ele tenha interpretado quando chegou ao trabalho nervoso e esbaforido, ralando o carro na pilastra da esquerda e batendo de leve no carro da frente. Muito menos quando, ainda possuído pela ira, leu seus e-mails, pegou o telefone e xingou o estagiário novo, mandando-o embora no segundo dia. Ele também não atuou quando pediu uma garrafa de café com a mão tremula, nem quando derrubou metade dela na camisa branca e menos ainda quando proferiu mais de cem palavrões dignos de clip de rap.

Oscar também não representava quando, dominado pela fome, teve uma "reuniãozinha rápida" de mais de duas horas com o presidente que, quando acabou de falar, o chamou para almoçar em um restaurante caríssimo e não pagou a conta. Sua veia saltada e sua coloração levemente avermelhada não eram maquiagem quando teve que refazer o relatório mensal pela terceira vez, nem quando recebeu a visita importantíssima de Vera, a recepcionista chata que só faz falar.

Oscar estava no trânsito, depois de sair tarde mais uma vez, e também não simulou sua reação inquieta e cheia de gestos quando tomou uma fechada de um caminhão. E também não estava dando o ar de seu dom artístico quando amaldiçoou o aumento de impostos dado no rádio.

E quando chegou em casa, cansado e sem forças para nada, Oscar recebeu sua esposa de braços abertos, escutou todas as novidades do dia, brincou com seu filho enquanto jantava e, docemente, dormiu ainda de roupas.

Duvido que aquilo tenha sido uma atuação, mas Oscar merecia mesmo um Oscar.

postado por: HENRIQUE ROJAS 12:32 PM


Comments: Quinta-feira, Outubro 05, 2006

MEU LAR

Não tem porta nem janela
Não é mansão nem favela
Não tem hall nem tem portão
Não tem piso nem tem chão

Não tem porteiro ou portaria
Não fica ao lado de farmácia ou padaria
Não tem valor de mesquinharia
Não tem um retoque que eu faria

Não tem preço nem valor
Não foi construída com torpor
Não tem fogão nem exaustor
Ela é o meu amor

Minha casa não é um sobrado ou um edifício, chegar nela não é difícil e deixa-la é inadmissível. Ela é de carne e osso, tem a beleza de um colosso, está sempre certa (mesmo errada) e eu a chamo de namorada.


Versos tolos e infantis, que dizem a verdade de uma criança.

postado por: HENRIQUE ROJAS 2:10 PM



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