O som das letras

Textos. Apenas textos escritos por mim e por música. A música das letras.



Comments: Sexta-feira, Agosto 25, 2006

A MOÇA DO LEITE MOÇA

Apressado como sempre, passei com o carrinho pelos corredores do mercado. Antes de pagar, no entanto, lembrei dos apelos invioláveis de mamãe: "Não se esquece do açúcar, do café, do leite e daquelas duas latas de Leite Moça!".


(Apenas um parêntese: na cultura popular, Leite Moça não é igual a leite condensado; Leite Moça é Leite Moça. Não é igual a Gilette ou a Bombril, que você fala que vai comprar e volta para casa com um barbeador BIC e um pacote de Assolan porque estava mais barato. Quando sua mãe pede Leite Moça, ela quer Leite Moça.)


A idéia não me agradou, mas lá fui eu.

Cada vez mais perto da prateleira, comecei a me sentir estranho: eu estava sendo observado! E não eram as câmeras do supermercado ou algum segurança, claro que não, era algo diferente do normal.

Em milésimos de segundos, meus passos se despassaram e minha aceleração desacelerou - era ela, ela é quem estava me olhando.

Um balde em cada mão, um deles apoiado na cabeça, lá estava a Moça. Moça com M maiúsculo mesmo, porque aquela era uma senhora moça. Com um sorriso irônico nos lábios e uma roupa tão brega que a deixava ainda mais assustadora, ela meio que caçoava de mim - "Vem, seu gordo estúpido, me leva para a casa; vou entupir suas veias e melar todas as suas roupas de brigadeiro".

Por 1 ou 2 minutos fiquei imóvel. Olhava para baixo e para o alto, desviando o olhar, mas ela continuava me ameaçando. Ela me desafiava, me olhava e me queria tal qual um zagueiro anseia por uma habilidosa canela.

Enfrentando todos os meus medos corri de encontro a ela, cheguei bem perto, e no último instante, desviei e peguei duas latas na prateleira do lado.

Ao chegar em casa, então, minha mãe perguntou:
- Leite condensado Mococa, filho?
- É mãe.
- Mas por quê?
- Por quê?! Você nunca leu a lata do Leite Moça, não? Tá escrito "Fazendo maravilhas desde 1921". Vinte e um, mãe!!! Certeza que tava vencido...

postado por: HENRIQUE ROJAS 10:51 AM


Comments: Segunda-feira, Agosto 21, 2006

OMAR

No balanço do mar, quem dança é Omar.

E, no balanço do barco, é quem olha pro céu, clama por piedade, roga perdão, ora por tranqüilidade, e pensa que dias melhores virão.

No balanço do mar, quem luta é Omar.

E, no balanço das águas, que ondam e desondam, ele pede de pé o que pediria de joelhos, e fica de joelhos enquanto tenta se manter de pé.

No balanço do mar, quem grita é Omar.

E, no balanço da alma, ele é quem se atraca com ele mesmo, esquecendo o mastro, o leme e o destino, lançando âncora em um atol desconhecido.

No balanço do mar, quem chora é Omar.

E, no balanço dos ventos, brigando com a natureza, ele urra de dor e prazer, de ódio e certeza, sabendo que tudo vale mesmo a pena.

No balanço do mar, quem dorme é Omar.

E, no balanço do peito, resignado e sem palavras, ele é o marujo que de frente o horizonte olharia - mas que, agora, jaz na calmaria.

Ô mar, ô mar...

postado por: HENRIQUE ROJAS 11:27 AM


Comments: Quarta-feira, Agosto 16, 2006

SOZINHO?

Como posso me sentir sozinho,
Desprotegido e abandonado,
Com alguém tão especial do meu lado?

Como poderia me sentir no escuro,
Sufocado, assustado e calado,
Se a resposta para as minhas dúvidas também mora ao lado?

Como poderei um dia me ver a esmo,
Sem rumo ou caminho traçado,
Se quando eu acordo ela está ao meu lado?

Jamais ficarei sozinho,
E isso é certo,
Pois minha casa está, sim, vazia - mas meu coração está repleto.


1 ano, 16 dias e 13 horas ;)

postado por: HENRIQUE ROJAS 11:34 AM


Comments: Terça-feira, Agosto 08, 2006


JOÃO

Tem pessoas que se irritam com barulho, outras que não suportam pó, algumas alho poró, crianças, filas, choro, enfim. João se irritava com risos.

Nunca rira na vida. Talvez já tivesse rido, mas, desde que se tinha notícias, João jamais havia dado um sorriso sequer ¿ nem mesmo aquele de canto de boca, nem mesmo com aquela tirada fantástica do coleguinha da 5ª série na professora de matemática.

João não ria.

Não era um sujeito triste, não era infeliz, apenas tinha verdadeiro pavor a risos. Enquanto todos rachavam, se mijavam de rir com aquelas ótimas piadas machistas ou de humor negro, ele ficava parado. Aliás, parado não: lhe saltava a veia na testa, seus punhos cerravam e os dentes rangiam.

E Se engana quem acha que ele só colheu fracassos na vida. Ganhou até dinheiro. Foi selecionado para estrelar um quadro na TV onde ficava olhando as pessoas rirem e jamais ria. Pena que não durou muito: certa vez, em programa ao vivo, socou sem piedade um rapaz que teimava em fazer micagens e gargalhar a sua frente.

João brincava, zombava, mas não ria.

Certa vez foi ao teatro e, enquanto todos se divertiam muito com a comédia no placo, ele se levantou e foi embora. Lá perdeu mais uma de suas incontáveis namoradas avessas a um cara que não sorri.

Hoje ninguém mais sabe de João. Com tanta raiva, afastou a todos e foi sumindo, nem sua mãe mais o ligava ou convidava para o Natal. Lendas dão cabo que ele foi para a África e para o fundões da Ásia ver os flagelos de perto.

Mas até lá as pessoas, por pior que estejam, vêem graça num ritmo ou num gol.

João fujão.
João zangão.
João pagão.

João, João, João...

postado por: HENRIQUE ROJAS 3:27 PM


Comments: Segunda-feira, Agosto 07, 2006

Digam a eles que eu sou eu
Digam a todos que sou minha família, que sou meu amor
Que sou meus amigos, que sou minha dor

Digam a elas que não façam intrigas
Digam a alguns que não fujo da briga
Digam que luto, digam que apanho
Digam que perco, digam que ganho

E digam que estou aqui
Firme e forte
Encarando a vida
E driblando a morte
.

postado por: HENRIQUE ROJAS 11:21 AM


Comments: Quarta-feira, Agosto 02, 2006

LINCENÇA

- Com licença, posso sentar?

Absurdamente concentrado em seus problemas, Sílvio achou também um absurdo alguém pedir licença para sentar em um espaço público. Consentiu com a cabeça, como quem diz "óbvio!" e perdeu o olhar novamente pela janela. O trem voltou a andar e, com ele, Sílvio voltou a dialogar com sua cabeça.

- Frio hoje, né?

Se já havia se sentido invadido da primeira vez, dessa vez Sílvio se sentiu parte do vagão, um bem público. Ignorou o comentário, virou a cabeça ainda mais em direção a janela e permaneceu quieto, envolto em suas dúvidas.

- Eu não sei o senhor, mas eu prefiro os dias de sol. Frio dá vontade de ficar na cama, calor não: é vontade de sair, viver, conversar, se mostrar... calor é mais humano!

Sílvio continuou se fazendo de mudo.

- Ah, mas o frio também é bom. Tem mais comida, mais vinho, mais elegância; tem até mais beleza às vezes! O senhor prefere o quê? Tem cara de quem prefere o frio...

Ainda calado, Sílvio levantou e se retirou do trem, sua estação havia chegado. Saiu apressado, ajeitou a gravata e seguiu a pé até o escritório. Agora sim, pensou, agora sim sossego! Pegou a pilha de folhas, atendeu telefone, pediu um café para a secretária; enfim, trabalhou.

E quando parou, notou a porta da sala fechada e o silêncio empresarial de sua sala, pensou na moça do trem. E sorriu.

Deveria ter sorrido para ela, mas ao menos, sorriu.

postado por: HENRIQUE ROJAS 9:58 AM



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