O som das letras

Textos. Apenas textos escritos por mim e por música. A música das letras.



Comments: Terça-feira, Julho 11, 2006

MARIO

Todos os dias, Mario tinha um encontro marcado.
De 2ª a 6ª, religiosamente, ele ia para a janela de seu quarto assim que levantava e ficava a observá-la. E ela vinha. Vinha gingando, malevolente, quase que desdenhando da rua toda. Vinha repleta de sacolas, repleta de sorrisos, repleta dela mesma. Vinha.

Da sua janela, Mario delirava.
Sorria, assoviava, piscava, jogava beijos, mas, se ela olhava se escondia. Jogava a persiana para baixo, corria para detrás da parede, fingia olhar o prédio da frente ou falar no celular. E ela não entendia. Percebia que ele olhava, mas não porque se escondia.

Eles ficaram assim por meses. Até o dia em que Mario não agüentou.
Numa quinta-feira qualquer, debaixo de um sol de mais de 30º, ele acordou, foi até a janela e lá estava ela. De novo linda, de novo leve, de novo repleta de sacolas. Não se sabe se pelo calor ou pela paciência esgotada, ele só calçou os chinelos e desceu loucamente. Pelas escadas.

Pouquíssimo tempo antes de ela entrar no prédio em que trabalhava, Mario chegou - esbaforido, cansado, apreensivo. Parou na sua frente e sorriu nervosamente. Ela sorriu de volta. Ele respirou fundo; ela também. Ele abriu um pouco a boca, como quem fosse dizer algo, e... correu. Passou a mão nas sacolas que ela levava e correu para casa!

Pronto, estava feito. Muito em breve, Mario iria finalmente saber o que tanto aquela estranha carregava naquelas sacolas.

postado por: HENRIQUE ROJAS 4:37 PM


Comments: Quarta-feira, Julho 05, 2006

SONHADOR

Sentado no parapeito da janela, Miguel repassava pela última vez o filme de sua vida.

Ali, sozinho, sem ninguém para gritar que ia pular nem ninguém nenhuma mulher neurótica para rebater "Não, não pule, não vale a pena!", ele assistia tudo de novo, sem pular nenhuma parte. Miguel era um sonhador.
Lembrou da sua infância fantástica, repleta de amigos imaginários, dragões malvados e donzelas conquistadas. Lembrou também de seu desempenho escolar, quase sempre pífio, donde era taxado de "avoado". Lembrou também dos pais, das mulheres, dos trabalhos...
Agora estava ali, isolado na ponta de uma grande janela, olhando o céu da cidade, sem amigos, família, esposa ou filhos e com um emprego meramente ilustrativo. Estava cansado.

Quando escorreu uma última lágrima, Miguel realmente pulou...
... do 2º andar.

Não ganhou nada além de um punho quebrado e uma semana de férias.

Miguel era mesmo um sonhador.

postado por: HENRIQUE ROJAS 10:26 AM


Comments: Segunda-feira, Julho 03, 2006


Da série "Em tempos de Parreira":
UM NOVO DITADO

Jogamos como sempre, perdemos como nunca.

postado por: HENRIQUE ROJAS 4:03 PM


Comments: DOIS JOGOS*

Sábado, dois jogos,
O da grama e o do coração
Sábado, dois jogos,
Opostos sem relação

Um jogo começou ganho
O outro começou perdido
E o que não me era estranho
Tampouco era divertido

E, não mais que de repente, estava tudo invertido
Derrota e vitória se fundiam sem sentido
Eu já estava perdendo o que havia vencido
E já estava vencendo o que estava perdido.

Sem suor e sem luta
A batalha do campo não empolgou
Com lágrimas e "utas"
O jogo do coração esquentou

Vergonha no estádio
Felicidade dentro do peito
O futebol foi só presságio
O amor continua inteiro

Na grama, decepção
No peito, resignação.


* Nos dois jogos de sábado, perdi o que menos importava. Uta!!! :D

postado por: HENRIQUE ROJAS 1:50 PM



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