O som das letras

Textos. Apenas textos escritos por mim e por música. A música das letras.



Comments: Quinta-feira, Abril 27, 2006

AGRADEÇO A BRASÍLIA PELA GRAÇA ALCANÇADA

Eu sou, era, cleptomaníaco. Desde pequeno pego as coisas dos outros e não devolvo. Começou com algumas figurinhas, depois com a bisnaguinha do recreio daquele gordinho que sentava no canto da classe, daí para os estojos alheios e, quando eu vi, já estava roubando não apenas a figurinha - mas o dono da banca.

É difícil. Eu não quero nem preciso daquilo, mas a vontade é incontrolável. "É doença", me confidenciou um amigo, "vai se tratar com um médico". Na primeira consulta fiquei meia hora no consultório e saí com o estetoscópio e o termômetro. Na segunda, saí com jaleco branco debaixo da blusa. E, na terceira, quando me cobraram pelas outras duas consultas, comecei a me curar: eu pegava caneta BIC de banco, mas aquilo sim é que era um roubo!

Daí comecei a notar os outros. Ônibus quebrado e caído por 2 reais, litro da gasolinha a quase R$3, pão francês quase 40 centavos. Definitivamente eu não era um bom ladrão.

Mas tudo mudou em uma quarta-feira qualquer, quando abri o jornal e o li de cabo a rabo. Era CPI de tudo quanto é coisa, engravatado levando dinheiro a dar com pau, filha-do-neto-do-sogro-do-amigo-do-papagaio-da-tia ganhando também... entrei em depressão.

Hoje, alguns meses depois estou 100% regenerado e ia agradecer a Santo Expedito pela graça alcançada. Mas mudei de idéia.

postado por: HENRIQUE ROJAS 10:15 AM


Comments: Segunda-feira, Abril 24, 2006

DESEJOS

Que no dia de hoje, quando chegar em casa, você tenha uma surpresa.

Que seu banho esteja preparado, sua cama arrumada e o seu jantar esteja pronto ¿ a luz de velas.

Que, tal qual ocorrido em um setembro já distante, você sobrevoe seus sonhos mais bonitos, invente sua própria rota e colida contra a boca da sua amada ¿ deixando milhares de suspiros desabrigados.

Que todos olhem para você espantados, sem saber daonde vem tanta felicidade.

Que você presencie explosões de riso,
e receba rajadas e mais rajadas de felicidade.

Bombas? Só de chocolate.
Balas, só de caramelo.
E guerra, só se for de travesseiros.

Viva a vida. Porque violência é deixá-la de lado.

postado por: HENRIQUE ROJAS 5:39 PM


Comments: Terça-feira, Abril 11, 2006

DONDE ESTOU

Às pessoas que me odeiam
Diga apenas que sumi
Que me arruinei na vida
Que fiquei "fora de si"
Que virei a pior das lendas urbanas
Valho menos que um saci

Já àqueles que me amam
Não se faça de rogado
Diga a eles que estou rico
Que me tornei advogado
Que como bem e tomo champanhe
Sempre bem acompanhado

E àqueles que nada perguntarem
Se limite ao silêncio
Não invente nada grande
Mas também nada pequeno
Se não me têm na memória
O melhor é o esquecimento

postado por: HENRIQUE ROJAS 4:37 PM


Comments: Quinta-feira, Abril 06, 2006

ISSO NÃO

Amigos são mesmo anjos
Pessoas que a gente escolhe e ama
Amigos são os meus arcanjos
Atores principais da minha trama

Não saio de casa sem eles
Os levo para onde for
Pouco importa a cabeça e a cor da pele
Por eles tenho faterno amor

Mas um dia, quem diria,
Enfureci com uma surpresa
Procurei embaixo da cama
Não estava em cima da mesa

Olhei bem entre os papéis
Notei a marca ainda viva na capa da Veja
O meu chão sumiu
Me tiraram a eterna certeza

Não tenho mais amigos
Destronaram-me a realeza
E bradando eu vos digo
Batam em mim, mas não toquem na minha cerveja!


Equipe, broder!

postado por: HENRIQUE ROJAS 9:47 AM


Comments: Segunda-feira, Abril 03, 2006

INDIFERENÇA

Quarta-feira, meio-dia, sol a pino.
Manoel Ferreira, quem diria, tem destino.
O motorista tentou parar, freou, mas não conseguiu.
Manoel nem tentou desviar, seu olhar baixou, mal reagiu.

Momentos de tensão, Manoel no chão, multidão curiosa.
Momento de reflexão, Manoel no caixão, coroa de rosas.

Imprudência, violência, maledicência?
Desilusão, frustração, incompreensão.

Afinal quem se preocupa com Manoel, mais um entre tantos?
Afinal quem se preocupa, entre a terra e o céu, com tanto horror e espanto?
Para onde será que ele vai, que ele foi, que ele está?
De quem ele é pai, e se é que não o foi, alguém vai chorar?

O corpo no chão, o asfalto escaldante, a cidade não pára.
E ele na contramão, expressão tranqulizante, e a dor que não sara.

Se alguém chorar por Manoel, acredite, não irá chorar com lágrimas.
E se alguém passar o chapéu, não duvide, estará a cobrar pela cena trágica.

postado por: HENRIQUE ROJAS 5:50 PM



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