O som das letras

Textos. Apenas textos escritos por mim e por música. A música das letras.



Comments: Quarta-feira, Fevereiro 22, 2006

O MEIA ARMADOR

Fez que ia para um lado, mas foi para o outro.
Cabeça levantada, domínio perfeito, sabe-se lá se é destro ou canhoto.
Bateu de lado na bola, precisão cirúrgia, tudo friamente calculado.
Nem andou nem correu, apenas trotou, recebendo a redonda isolado.
Veio volante, zagueiro, líbero e cabeça de área.
Cortou daqui, ziguezagueou de lá, aquele fino balé que metralha.
Bola solta, novamente, ela não nasceu para ficar presa.
Lançamento sublime, bola no pé, certeza que é surpresa.
E quando parece que ficou sem a sua parceira, que alguém a tomou,
Ele abre o compasso, mostra que ela não pula a cerca, e segue para o gol.
Sua pouco, ou nem sua, uniforme sempre limpo.
Joga bola, leva a vida, faz que brinca no Olimpo.
As vezes o perguntam como é brincar de Deus.
Cabeça baixada, riso entreaberto, prefere o silêncio e sinaliza o adeus.

postado por: HENRIQUE ROJAS 2:45 PM


Comments: Segunda-feira, Fevereiro 20, 2006

AQUI

Aqui nesse peito, que já foi morada de riso, alegria e histeria,
Hoje reina o silêncio.
Aqui nesse olhos, o que já foi brilho, cor e vida
Hoje quem manda é o opaco, o úmido e o cinza.
Aqui nessa boca, que era só sorrisos e bem dizer,
Hoje moram lábios trêmulos, que só fazem sofrer.

E aqui nesse corpo,
Todo ele, ele todo,
Hoje eu sou mais eu e menos você.

Aqui nesse corpo,
Ele todo, todo ele,
Hoje eu sou só um punhado de ossos, órgãos e pele.

postado por: HENRIQUE ROJAS 6:00 PM


Comments: Segunda-feira, Fevereiro 13, 2006

TENSÃO

Silêncio. O senhor alto e robusto olha ao redor, meio que impaciente, cenho franzido, cara de poucos amigos. Já a menina, bolsa a tiracolo, sentada meio de lado, rosto torcido, leva a mão insistentemente a face. Próximos à eles, a senhora com guarda-chuva na mão e o garoto de mochila nas costas se entreolham repetidamente, em um jogo enigmático de resistência. Enquanto isso, um pouco mais atrás, o garotinho não pára no colo da mãe, falando alto, e sendo respondido com sussuros. O vendedor de doces passa rápido distribuindo e recolhendo suas amostras, deixando cair o troco, trombando e sorrindo nervoso.

A tensão está no ar.
São seis e meia da tarde, está chovendo e alguém peidou no ônibus. Disso ninguém duvida.

postado por: HENRIQUE ROJAS 12:56 PM


Comments: Quarta-feira, Fevereiro 01, 2006

UM POUCO DE TUDO

Beijo, que rima com queijo, todo mundo quer ganhar.
Mas queijo, quando no sentido de cheiro, ninguém quer cheirar.

E perigo, que rima com abrigo, ninguém quer correr.
Agora, abrigo, ainda que seja num ombro de amigo, todo mundo quer ter.

Basta observar um verdadeiro abraço, que é dado com os braços, e se convencer.
Se convencer de que quem tem braço, ainda que de aço, pode por tudo a perder.

Até porque perda, que rima com esquerda, ninguém nunca vai almejar.
E a esquerda, esperança nacional que se transformou ironicamente em perda, ninguém vai jamais perdoar.

postado por: HENRIQUE ROJAS 4:32 PM



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