O som das letras

Textos. Apenas textos escritos por mim e por música. A música das letras.



Comments: Sexta-feira, Janeiro 27, 2006

SAMBA

Do que é feito o samba?

O samba é feito de cavaco, pandeiro e violão
É feito com tan-tan, repique e marcação
O samba é feito com ouvido e ritmo, é perfeição
É feito pelo homem, de geração em geração.

E você, me diga, do que é feito o samba?

O samba é feito no terrero
É feito com alegria, é feito no país inteiro
O samba é quebrado, tem swing, tem conceito
É o sorriso tocado, e toca dentro do peito.

E eu ainda não sei - do quê? - do que é feito o samba?

O samba é arrelia
É fruto de protesto, de festa, de alegria
O samba é notável, cai bem de noite e de dia
É o que o carnavalesco chama, sorridente, harmonia.

postado por: HENRIQUE ROJAS 5:50 PM


Comments: Quinta-feira, Janeiro 19, 2006

GLICOSE

- Glicose?
- Não, obrigado, estou de regime.

Só uma meia hora depois, após analisar com certa dificuldade os indícios de boca seca e gosto de cabo de guarda-chuva no céu da boca, percebi que aquela pergunta não havia sido endereçada a mim. Eram 10 da manhã e eu estava em um hospital, com um tubo de glicose ligado na veia.

Aí, como é de praxe com aqueles que passam da conta, comecei a me lembrar lentamente da noite anterior. O dia tinha sido bom. Mal acordei, me ligaram da empresa pedindo para eu ir mais cedo. "Manda quem pode, obedece quem tem juízo" - fui o mais rápido possível. Chegando lá descobri que a coisa era boa: havíamos batido o recorde de vendas!

Abraços, elogios, "Tavares, você é a alma da empresa", "Que é isso seu Borges...", "Não seja modesto, seu safado!". Enfim, o negócio é que eu era o rei.

O almoço foi por conta do chefe. A melhor churrascaria da cidade. Caipirinha, cerveja, picanha, futebol, política, mulher... a coisa tinha sido mesmo do cacete! Três horas de almoço. Chegamos as 16h e as 17h saímos para o happy hour. Avisei a patroa que ia chegar mais tarde e dá-lhe chopp! De lá, casa de massagens. E de lá... de lá... hum...

- Se sente melhor, senhor?
- Claro, claro, perfeitamente.
- Sua esposa está aqui.

A Clara? Era o fim. Separação. Litígio. Pensão. Lágrimas.

- Amor! Você está bem?

"Amor"???

- Claro, Clarinha. Me desculpe é que...
- Me desculpa você, xuxu. O Borges ligou e contou tudo. Você é mesmo um amor!

Até hoje não sei o que o Borges contou. E nunca me atrevi a saber.

postado por: HENRIQUE ROJAS 9:56 AM


Comments: Terça-feira, Janeiro 17, 2006

NADA

Toquei a campainha pela terceira vez e nada. Nenhum barulho, um ruído que seja. Nada que pudesse me mostrar que havia alguém lá dentro, mas também nada que me convencesse de que não havia mesmo nada por ver. Toquei de novo. E mais uma vez a casa se aquietou na minha presença.
Dei uma volta pelo bairro, olhei as outras casas, as crianças correndo, os senhores que liam jornais e lavavam seus carros, e também as senhoras que passeavam com o cachorro ou saiam apressadas com suas saias longas. Aquilo tudo me remetia de volta ao passado. Aquele barulho, aquele cheiro, aquelas pessoas¿ tudo, de uma forma ou outra, estava me ligando diretamente com aqueles anos maravilhosos.
Tínhamos acabado de mudar para aquele bairro novo, para aquela casa nova, para aquela vida nova. Felizes como éramos, fizemos a mudança por conta própria, sem precisar da ajuda de mais do que um pequeno furgão. Lá, acordávamos, comíamos, dormíamos, amavamos; enfim, vivíamos. Lembro-me bem de como ela gostava de brincar com o cachorro no gramado, e de como sorria toda vez que eu lhe preparava o jantar. Eu também adorava aqueles pequenos rituais, o nosso banho de banheira, nossas festas, nossas conversas.

Mas um dia acabou. Foi exatamente o que ela disse para mim: "acabou".

Toquei novamente a campainha. Como pode meu Deus, depois de tudo o que passamos, ela dizer para mim que aquela casa estava vazia?

postado por: HENRIQUE ROJAS 3:48 PM


Comments: Segunda-feira, Janeiro 16, 2006

OFICINA DO DIABO - "DEUS E SUA GOROROBA"

Exercício: Caixa Preta
Foi nos dada uma palavra em comum (Deus) e então tiramos uma outr aleatória na caixa-preta (Gororoba). Aí é montar título e texto!


Um pouco de água, um pouco de terra.
Um pouco de paz, um pouco de guerra.

Preto e branco, senegalês e alemão.
Amarelho e vermelho, japonês e índio velho.

Montanhas, colinas, montes e vulcão.
Vales, precipícios, buraco e depressão.

Um médico aqui, um gari acolá.
Advogado e político, quem vai roubar?

Sete dias, já deu, vejam que bela obra.
Sete dias, fodeu, tá feita a gororoba.

postado por: HENRIQUE ROJAS 10:59 AM


Comments: Sexta-feira, Janeiro 13, 2006

OFICINA DO DIABO - "HITLER E SEU TAPIBAQUÍGRAFO"

Exercício: Caixa Preta
Alguém no grupo (no meu caso o ótimo Sr. Magnífico) escolhe uma palavra e exdruxula (tapibaquígrafo) e, após juntá-la a outra palavra tirada, aleatoriamente numa caixa-preta (Adolf Hitler), formamos título e texto.


Quem lembra da figura imponente e cruel de Adolf Hitler, certamente imagina um homem vil, sério e sem coração. Pode ser mesmo que Hitler amasse poucas coisas, mas é certo que algumas coisas ele amava. Certamente amava sua filosofia e sua patente. Mas também amava muitas outras coisas nazi-fascistas. Seus soldados, por exemplo: todos altos, loiros e fortes - ariano, enfim - estavam ali para obedecer qualquer ordem ou vontade de seu führer. De matar um homem a matar vontades. E era em sua sala, sobre seu tapibaquígrafo de estimação, que muitos soldados mataram a sua vontade, Adolf, quem diria, era Adolfinho e não Adolfão; Hitler, quem diria, recostava em seu tapibaquígrafo e imitava a famosa posição de Napoleão.

postado por: HENRIQUE ROJAS 10:57 AM


Comments: Quinta-feira, Janeiro 12, 2006

OFICINA DO DIABO 3 - "UM E POUCO, DOIS É BOM, TRÊS É DEMAIS"

Exercício: Palavrório
Pensar em uma frase (título) e escrever uma história livre no improviso, colocando palavras jogadas ao acaso (em negrito) de 1 em 1 minuto. Confira!


Viver não tá fácil. É imposto, escola, tênis por garoto, tamanco pra sogra, casinha por cachorro... é dinheiro que não acaba mais! Aliás, por falar em dinheiro, outro dia fui no banco tirar algum e adivinhem o que aconteceu? Além de ficar 3 horas naquele forno (sim, o ar estava quebrado), descobri que minha mulher havia errado a senha do certão três vezes e agora ele estava bloqueado.

Fiquei Puto. Posseso. Mas como dizia mamãe, "Tá nervoso morde o dedo ou cospe na privada" - escolhi pela 2a opção e fui pro banheiro lavar o rosto e tentar me acalmar. Naquele momento, minha amada a esposa, a mulher que prometi amar na saúde ou na doença, não passava de uma mocréia desporivda de inteligência. Deu vontade de chegar em casa e afogá-la com pesticida. Mas o tempo passou, me acalmei, e voltei a pensar em Dalva como a mulher maravilhosa que sempre foi.

Ela errou, só isso. Deu xabú, deu zebra, ela se enganou na hora de digitar, só isso. Poxa, aquele assunto estava mesmo me aborrecendo. A caminho de casa, no carro, tornei a pensar o quão injusto havia sido com aquela mulher que nunca fizera mal nem a um cadáver de mosca. Uma santa, praticamente. Imaginei-a planando no ar, suas asas de anjo, tocando seu sublime xilifone, a sorrir.

Ó Dalva, minha amada. Você só se enganou um pouco, só isso. Deu pane, branco, diarréia mental, sei lá. Deu bosta mesmo. Agora eu ia ter que ficar 7 horas no falando no telefone com algum cara de telemarketing que se acha melhor que o Napoleão. Pô, Dalvinha, mas também 3 vezes?! Uma é pouco, duas é bom, mas três... porra, três já é demais!!!

postado por: HENRIQUE ROJAS 11:08 AM


Comments: Quarta-feira, Janeiro 11, 2006

OFICINA DO DIABO 2 - "INEXPERIÊNCIA SEDENTÁRIA"

Exercício: Caixa Preta
Escolher a 1a palavra que lhe vem a cabeça e você não gosta (Inexperiência) e juntá-la a outra palavra tirada, aleatoriamente, numa caixa-preta (Sedentário). Formar título e texto com elas.


Quero que o mundo se exploda
Vá pra casa do caralho
Nesta semana você é a milhonésima pessoa
Que me chama de sedentário

E como se não bastasse
Diz com o sorriso aberto em dentes
Que mesmo que eu trabalhasse
Seria inexperiente

Então escute aqui, meu senhor,
Já que você não me ajuda
Guarde estas palavras com amor
Você é um tremendo de um filho da puta.

postado por: HENRIQUE ROJAS 12:02 PM


Comments: Terça-feira, Janeiro 10, 2006

OFICINA DO DIABO 1 - "UM ADORÁVEL SACRIPANTAS SEM-VERGONHA"

Exercício: Caixa Preta
Escolher a 1a palavra que lhe vem a cabeça e você gosta (Sacripantas) e juntá-la a outra palavra tirada, aleatoriamente, numa caixa-preta (Sem-vergonha). Formar título e texto com elas.


Pedro era um cara sacana. Pedro era um filha da puta. Era delicado na frente dos outros, mas era um porco boca-suja quando estava à vontade. Eu odiava Pedro. Era folgado, desorganizado, sem-graça, bobo e mesmo assim todos o adoravam. Maldito Pedro. Quando chegava no escritório depois de 3 horas de almoço, o safado mexia com todo mundo - nem o chefe ele perdoava. Nunca cumpria prazos e não deve ter sido aprovado nem no exame de fezes. Um fracassado. Só enchia o saco.

Hoje tá fazendo um mês que ele pediu demissão e foi pra Bahia. Tá fazendo falta. Pedro, aquele filho da puta. Um sacripantas sem-vergonha...

postado por: HENRIQUE ROJAS 3:11 PM



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