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O som das letras
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Textos. Apenas textos escritos por mim e por música. A música das letras. Comments: Quinta-feira, Dezembro 29, 2005 LISTAS Dezembro é o mês das listas. Não somente das listas de presente que figurão em 10 de cada 10 lares do mundo, carimbadas e endereçadas à Lapônia, com carinho e amor, para Papai Noel - o bom e velho Santa Claus. Dezembro é o mês das listas de melhores momentos, piores passagens, atletas premiados, políticos escurraçados, empresas que mais venderam, os fracassos, enfim... tem lista para tudo quanto é gosto. Eu prefiro não ver essas listas. Não que estas sejam desinteressantes (são até muito úteis e curiosas), mas é que são parte de uma mesma coisa. Falam de melhores e piores, de bons e maus, tops 10, tops 20. Tudo farinha do mesmo saco. Minha lista é diferente. Na minha lista figuram meus filhos, cada dia mais espertos e ariscos; minha esposa, meu amor, cada dia mais linda; meus avós, com mais de 80, encarando o século XXI na boa; meu ótimo emprego, que me faz acordar todos os dias aos assovios; e por aí vai. O ano de 2005 foi melhor que o de 2004, e espero que possa se repetir em 2006. Não quero ficar milionário, não quero ser presidente, não quero ser o homem mais sexy do mundo. Quero minha família, quero meu prazeres, quero uma vida. Aquela vida que, mesmo que eu queira, não daria para listar nem com narração do Cid Moreira. Feliz Ano Novo. postado por: HENRIQUE ROJAS 4:52 PM Comments: Quinta-feira, Dezembro 22, 2005 FELIZ NATAL Abriu o nono cartão seguido com a mesma mensagem. "Um Feliz Natal e Um Próspero Ano Novo. Esses são os votos de..." Se sentiu mal. A cada cartão que abria, a mensagem se repetia, e ele se sentia cada vez mais um número naquele período de festas. Sentia que as pessoas escreviam para ele não pensando nele, mas sim porque era educado se lembrar das pessoas nessa época do ano. Educação¿ "Feliz Natal"... é só isso que se deseja para o dia 25? Não existem outros desejos, as pessoas não pensam diferente? Pois ele duvidava que não. "E Um Próspero Ano Novo"... isso ele tinha certeza que a maioria achava o máximo. Era a mesma coisa que dizer "tomara que no ano que vem você se dê bem, fique rico, mude de casa, compre carros, figure na capa da Caras". Grande coisa. E então, quando uma lágrima ensaiava cair amargamente de seus olhos, veio um vulto de meio metro de altura, lhe abraçou, puxou seu cabelo e gritou FELIZ NATAL!!! com aquela vozinha estridente. Seu rosto, colorido pelas luzes que piscavam incessantemente na árvore natalina, instantaneamente mudou de figura e um sorriso largo se abriu. Aquele era seu filho. E aquelas mesmas palavras do cartão finalmente faziam sentido. Elas soavam muito mais gostosas e verdadeiras vindas daquela boca linda e infantil. Antes de começar a chorar e sorrir copiosamente ainda teve tempo para pensar que, se fosse um pouco maior e melhor na pronúncia, com certeza aquele pequeno ainda diria E UM PRÓSPERO ANO NOVO. Crianças... postado por: HENRIQUE ROJAS 5:48 PM Comments: Queridos, Hoje faz 4 meses que vocês se foram. E tenho de admitir que as coisas andam mesmo muito vazias sem vocês. São 120 dias, que mais parecem anos. 4.880 horas sem as suas presenças, sem os seus sorrisos, gritos, brigas, festas, enfim... sem vocês. Ontem tive um sonho bom. Sonhei que estávamos todos brincando no quintal enquanto o almoço não ficava pronto: mamãe (de avental!) pedia calma, o papai jogava bola com o Beto, enquanto o Yuri insistia em irritar o cachorro. Cada um no seu mundo, mas mesmo assim todos ligados entre si. Estranho. Já são 4 meses sem vocês. Mais estranho ainda que naquele meio tempo não houveram discussões, xingamentos, pancadas e choro. Dor. Porque eu sempre gostei muito de vocês, mas odiava infinitamente mais todas aquelas brigas estúpidas. Deve ser por isso que me joguei na frente daquele carro sem pensar duas vezes. Aqui em cima está tudo vazio, e está tudo em paz. Não sei se isso chegará mesmo até vocês, mas espero que não esqueçam de dar comida pro Cobby. E espero que a mamãe tenha feito aquele pudim de leite para vocês jantarem e ficarem na cozinha conversando, sem gritos nem choros. Não sei porque, mas nunca gritávamos com pudim na mesa. Beijos, Toni. postado por: HENRIQUE ROJAS 4:09 PM Comments: Quarta-feira, Dezembro 21, 2005 MIRTES Mirtes era assim. Mirtes era boa e era má, era risonha e era triste, dada e ressabiada; Mirtes era assim. Mirtes era cozinheira de mão cheia e não sabia fritar um ovo, era ótima pintora e não conseguia fazer mais que dois rabiscos, sabia dirigir como poucas e vivia com o carro batido; Mirtes era assim. Mirtes era dona de casa e chegava tarde do trabalho, tinha marido e era mãe solteira, usava óculos e enxergava tudo de perto e de longe; Mirtes era assim. Mirtes adorava doce e amava coisa amarga, odiava cigarro e dava sempre umas baforadas, era explosiva e muito contida; Mirtes era assim. Mirtes era apenas mais uma mulher de fases. Um ser humano de fases, como eu e você. Mirtes era o que era. Mirtes era assim. postado por: HENRIQUE ROJAS 3:12 PM Comments: Sexta-feira, Dezembro 16, 2005 ADEUS "Adeus". Para ela foi fácil. Disse isso, virou as costas e foi para sua confortável poltrona de primeira classe, rumo as belezas e certezas de um outro continente. Não sei se chorou, se sorriu, nem ao menos sei se teve alguma reação após privar-me de ver seu rosto. Pode ser até que tenha chorado, que estivesse arrependida pela partida, mas foi mesmo fácil para ela. Foi fácil porque, quando se virou, se deparou com um novo mundo. Não precisaria ficar ali no mesmo lugar, com as mesmas pessoas e a mesma rotina, respondendo às mesmas perguntas de sempre. Era um mundo novo. Mesmo que estivesse se matando por dentro encontraria novas pessoas, nova cultura, nova casa, enfim, se distrairia com algo. Ela, quem diria, logo ela. Aqueles cabelos lisos dançando rumo a uma aeronave, dançando sensualmente rumo a um novo lugar. Ela não deve ter chorado. Eu não choraria. Chorar por quê? Por começar vida nova, ter novas oportunidades e crescer? Chorar por um cara que lhe falou um punhado de vezes que ela estava linda, quase não elogiou sua roupa e reparou que ela havia mudado o penteado? Não, não... eu não choraria. Mas naquela hora, frente a frente com a grande vidraça do aeroporto, oras bolas, eu chorei. postado por: HENRIQUE ROJAS 2:57 PM Comments: Quinta-feira, Dezembro 15, 2005 IDÉIA PARA UM ROTEIRO DE ATO TEATRAL Quarto desorganizado de uma adolescente (quem diria?). Mãe, em pé com cara de poucos amigos, e filha, deitada cutucando a unha, discutem. - Não, não pode. - E por que não? - Porque não, oras. - Aposto que você podia. - Minha filha, os tempos eram outros e... - E aí que você podia e eu não posso... injusto, não? - Injusto? Você tem tudo do bom e do melhor, não precisa trabalhar, não precisa dar duro nenhum e... - Então é isso? - O quê? - Isso. Isso de trabalhar. Se for por isso começo hoje mesmo! - Júlia, já falei que não. - Já falei com a mão da Ritinha, começo hoje mesmo na loja de perfumes e... - Minha filha, eu já disse que não. - Mas... - Você não vai ter um cachorro! E ponto final. postado por: HENRIQUE ROJAS 1:39 PM Comments: PRECISO Preciso acordar cedo. Preciso tomar café correndo, pegar o melhor caminho, chegar rápido no trabalho. Preciso finalizar aquele relatório, ir bem na reunião, agradar meu chefe, conseguir um bônus. Preciso fazer regime, voltar para academia, comer nos horários certos, diminuir a fritura. Preciso lembrar do aniversário de casamento, do happy hour da empresa, do churrasco da família, da visita ao vivô no hospital. Preciso lembrar de doar sangue, ajudar quem precisa, sorrir sempre e nunca ser mal educado. Preciso dormir cedo, falar com meus filhos e minha esposa, e lembrá-los de que eles são a coisa mais preciosa do mundo. Preciso, preciso, preciso... Na verdade, a gente acha que precisa. Estamos acostumados a funcionar sempre na urgência, luz vermelha ligada, tudo tem importância máxima e é para ontem. Mas não precisamos de tudo. Algumas coisas nós queremos, outras necessitamos, outras temos que fazer. Ou refazer. Não estou bem certo quanto a isso. Preciso rever meus conceitos. postado por: HENRIQUE ROJAS 1:37 PM Comments: Quinta-feira, Dezembro 08, 2005 LIXO Paisagem cinza, chão sujo, céu fosco. Definitivamente o centro da cidade não contribuia para que ele levantasse a moral e recobrasse o ânimo. Aquela mistura de ratos, baratas, putas, bêbados e bitucas de cigarro, lhe desciam como um copo de pinga pura logo após um porre. Seu estômago reclamava, seu fígado reclamava, sua cabeça reclamava. E aquele corpo todo clamando por perdão surpreendentemente não lhe desagradava. De certo modo ele até gostava daquele mal estar. Era como um faquir decidido que jejua por opção, mas que na verdade pede perdão. A cada passo ouvia buzinas, gritos e grunhidos indecifráveis, e apenas olhava para o chão - como quem sabe que é merecedor daquilo. Ele era merecedor. Era o lixo. Era a escória. Era nada. postado por: HENRIQUE ROJAS 12:02 PM Comments: Sexta-feira, Dezembro 02, 2005 HAI KAI DE 3ª Hoje amanheceu chovendo. Eu amanheci correndo. O trânsito parou. Meu chefe não chegou. Vai vendo... postado por: HENRIQUE ROJAS 11:01 AM
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