O som das letras

Textos. Apenas textos escritos por música. A música das letras.



Comments: Quarta-feira, Novembro 30, 2005

DE NOVO

O telefone tocou e ele não atendeu.
Se atendesse, aquele corpo momentaneamente repousado a meia luz sobre o sofá vermelho da sala, teria de reviver tudo. Teria de reviver as infindáveis discussões, as brigas no carro, as crises de choro, aquele nó na garganta, os momentos de amargura... tudo de novo.

Tornou a tocar e ele tornou a não atender.
Teria de pedir desculpas pelo que fez, pedir desculpas pelo que não fez, acusar baseado em provas inxistentes, rebater críticas que pegavam fundo nas suas feridas, dizer coisas que não queria; teria que encarar alguém a altura.

Continuou a tocar e ele titubeou.
O braço do vulto sentado naquela velha poltrona se estendeu, mas foi prontamente recolhido. Novamente se moveu e, antes de tocar o aparelho, congelou no ar como em filme de ficção. O toque não parava e ele estava cansado daquilo. Cada som repetido que saía daquele telefone trazia lembranças diferentes e confusas, boas e más, risíveis e choráveis.

Incansável, o toque persistiu.
Enfrentar tudo aquilo outra vez seria algo difícil, mas já fazia tanto tempo que...

- Alô?

Era ela. Era mesmo a voz de Julia do outro lado da linha. Doce Julia...

postado por: HENRIQUE ROJAS 4:34 PM


Comments: Quinta-feira, Novembro 24, 2005

VISÃO

Tods os dias a zebra acorda.
E todos os dias ela acorda ciente de que terá que ser mais veloz que o mais veloz dos leões se não quiser virar comida.

Todos os dias o leão acorda.
E todos os dias ele acorda sabendo que terá que correr mais rápido que a mais lenta das zebras se não quiser morrer de fome.

O que os dois sabem é que, quando o sol nasce, eles têm de levantar e correr.
São iguais. É só uma questão de visão.

postado por: HENRIQUE ROJAS 10:38 AM


Comments: Segunda-feira, Novembro 21, 2005

DIA DE MERDA

Levantou e saiu da cama.
Mecanicamente espreguiçou, tomou banho, escovou os dentes, se vestiu, tomou café, leu o jornal assim meio que por cima, e foi trabalhar.

Mal pisou na rua e se sentiu sozinho.
Não que estivesse mesmo sozinho - a rua estava repleta de gente - mas se sentiu triste. Caminhou até o ponto de ônibus com o desânimo estampado na cara. Parecia que trazia consigo aquelas nuvens cinzas e pesadas de chuva de desenho animado, que jovem só na sua cabeça.

Pegou o ônibus apático.
Não reclamou que estava lotado, nem riu das piadinhas do motorista. Ficou em pé, tomou trombadas, quase caiu em dezenas de freadas bruscas, mas não mudou a cara. Mesmo no ônibus chovia em sua cebeça.

Chegou no trabalho encharcado,
Encharcado de saudade, monotonia, falta de vontade e de sorrisos chorosos. Trabalhou se arrastando, quase parando, em um dia que havia tantas tarefas que só seus melhores dias dariam conta. Era como se ele tivesse jogado tanto papel no vaso, que agora a água estava subindo e ameaçava molhar seu chão com coisas nada agradáveis.

Foi pra casa dormir.
Porque, as vezes, dormir é o melhor negócio.

postado por: HENRIQUE ROJAS 5:56 PM


Comments: Quarta-feira, Novembro 16, 2005

E Deus fez a Terra


Marasmo cotidiano
Ventania preguiçosa e chata
Ano após ano
Nó que não desata

E no calvário que se estende
Tempo congelado no pós-guerra
Lhe avistei não mais que de repente
Despertando em mim a fera
O orvalho já despende
Deus fez a Terra.

postado por: HENRIQUE ROJAS 11:28 AM


Comments: Sexta-feira, Novembro 04, 2005

SEXTA, 18H

São 8:45h. Acabei de chegar no trabalho, logicamente puto, porque chegar quinze minutos antes ou depois tem o mesmo efeito - ou seja, nenhum.

Chega o Natal, mas não dá seis da tarde.

Já vi meu emails e são pouco mais de 9. Meu chefe chegou e, junto com ele, seus adoráveis trabalhos matinais. Tudo bem, sem stress, sou pago pra isso. Quando olho no relógio já são 11:30... ótimo, porque daqui no máximo uma hora eu vou forrar o que chamo de estômago.

Nasce meu neto, mas não dá 18h.

Comi, voltei e trabalhei mais. São 15h. Aliás, são 15:01h de uma sexta-feira e o que eu tenho pra fazer eu faço na 2a (tô cansado, porra). Peguei um café, li uns blogs, e são 16h.
A patir de agora, meus amigos, o tempo cruza os braços. Fodeu.

Morre o novo Papa, mas 6 da tarde que é bom... necas.

Aposto que se eu ler de novo todos os blogs, na mesma velocidade e tomando os mesmos goles de café, vai ter passado 20 minutos - não uma hora. As vezes eu me convenço de que o tempo é um funcionário público. Você sabe, desses que, depois do meio-dia param e ficam caçoando da repartição inteira. E eu, certamente, sou o primeiro da fila.

O Rubinho chega de novo em segundo, mas a hora...

Olha só, se passaram dez minutos! Cacete... fosse sábado e já seriam 9 da noite. Certeza. Tomei meu 4o café. O quarta na última meia hora, é claro, porque do dia deve ser o número 12. Sexta é foda.

postado por: HENRIQUE ROJAS 5:58 PM


Comments: Quinta-feira, Novembro 03, 2005

DE GUDE

Após alguns momentos de indecisão, o dedo estica e lá vai a pequena bola cintilante. Vai em direção ai círculo demarcado, em direção às outras bolas ¿ tão cintilantes quanto - podendo se chocar ou não no meio do caminho, quando estará em constante movimento.

Assim também é a vida.

Tal qual as bolinhas de gude, cada de um de nós é uma esfera brilhante que vai de encontro as demais. E tal qual a brincadeira, nossa vida é também um jogo onde nos lançamos a sorte alheia, procurando fazer sempre o melhor. Se vamos atingir uma, duas, dez, cem bolinhas, não sabemos. Na verdade não sabemos nem ao menos se vamos atingir uma só bola - podemos, sim, passar em branco - mas temos que ir.

Parece óbvio demais, mas se você não vai, fica.

E o negócio é se lançar mesmo de uma vez e ver no que vai dar.
Se você vai topar com o amor da sua vida, com um vizinho chato ou com um mendigo sujo pedindo dinheiro, ninguém sabe. Certo mesmo é que é melhor se chocar com duzentas bolinhas maiores e mais pesadas do que você, do que continuar preso dentro do saco, juntamente com todas as outras bolinhas de gude que nunca são usadas.

Ousadas.

postado por: HENRIQUE ROJAS 12:49 PM



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