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O som das letras
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Textos. Apenas textos escritos por música. A música das letras. Comments: Segunda-feira, Outubro 31, 2005 BÊBADO Finalmente paguei a conta, levantei do sofá com a mão no bolso do paletó e sai do bar. Sempre que estou bêbado eu finjo que sou um gangster e coloco a mão no paletó como que pronto para engatilhar minha arma e meter bala em algum punk sujo. Pois mal saí pela porta, franzi a testa, cerrei os olhos e afundei mais a mão no bolso. Era tarde e a qualquer momento alguém poderia surgir e me atacar. Então caminhei mais um pouco, com os olhos cerrados e a mandíbula pressionada - quando estou de pileque fico forçando a maçã do rosto para parecer mais macho -, e acabei parando no ponto de ônibus. Não que eu quisesse pegar um ônibus. O que eu queria era ficar por ali, cara séria e mão no paletó, fazendo cara de mau e esperando alguém passar, me encarar e pensar "Olha esse cara, a essa hora, no ponto, sozinho... que foda". É foda quando eu fico breaco. Olhei tanto tempo fixamente para o orelhão do outro lado da rua que resolvi fazer uma ligação. Era tarde e eu não sabia pra quem ligar. Mas eu queria ligar, no duro. Odeio falar no telefone, mas quando bebo muito adoro ligar de madrugada e acordar algum filho da mãe. Nem que seja pra falar "oi" e desligar. Bêbado é uma merda. Como não lembrava nenhum número a não ser o de casa - e pra esse eu não queria mesmo discar - disquei qualquer um, a esmo. Demorou um pouco e um cara atendeu. Perguntei pelo Johny. Ele disse, quem? E eu: Johny. E ele: quem? Johny, oras, você sabe. Quando eu tô de fogo eu sempre procuro por algum Johny, ou Bill, Larry, enfim. Aí ele desligou. O Johny era mesmo um medroso filho da puta. Daí eu franzi os olhos na neblina e não enxerguei nada. Aí franzi mais. Adoro fazer isso bêbado. Mais. E mais. Então senti um gosto amargo na boca, uma tontura repentina e caí. De cair eu não gosto, é claro - nem bêbado. E só depois acordei, na calçada com um cachorro lambendo minha cara e uma senhora gorda perguntando se eu estava bem. Não respondi. As senhoras gordas são sempre suspeitas. postado por: HENRIQUE ROJAS 12:11 PM Comments: Terça-feira, Outubro 11, 2005 É, UÉ* Era uma vez, quatro rapazes chamados Todo Mundo, Alguém, Ninguém e Qualquer Um. Quando havia um trabalho complicado a ser feito, Todo Mundo estava certo de que Alguém o faria. Qualquer Um até poderia ter feito, mas Ninguém o fez. Quando Ninguém o fez, Alguém ficou nervoso porque isso era tarefa de Todo Mundo. No final, Todo Mundo culpou Alguém, quando Ninguém fez o que Qualquer Um poderia ter feito. * Uma velha e sábia fabula inglesa adaptada para o português. postado por: HENRIQUE ROJAS 11:03 AM Comments: Quinta-feira, Outubro 06, 2005 ABRINDO OS OLHOS - Blen, blen, blen. As infalíveis doze badaladas anunciam o tempo implacável. É meia-noite, já está tarde e uma fina garoa teima em cortar o gélido ar - mas ela não dorme. Não ela. Em pé, junto a janela, sua face pálida e delicada sente o frescor da madrugada, enquanto seus olhos fitam o horizonte perdido. Os últimos tempos não têm sido fáceis. Uma inquietude tomou conta do seu ser e ela simplesmente já não sabe mais para onde ir. Tentando facilitar o infacilitável, ela decidiu deixar de lado os moralismos. Não esconde mais suas emoções, não mede mais suas palavras e não liga para o que dizem, ainda que ultimamente pouco tenha sentido, falado e escutado. Sua mente a surpreende todos os dias com mais um dia. E isso a incomoda. Não que ela deseje a morte, longe disso. Ela só quer parar de sentir aquele tênue desconforto. Aquela angústia. Aquele aperto, aquilo, você sabe, que por vezes nos acorda no meio da noite e nos faz dormir no meio do dia. O que a irrita é a constância disso tudo. É estar sempre assim. É acordar sempre da mesma maneira, com os mesmos sentimentos desgastados, aquele mesmo medo estúpido e covarde... é acordar. Acordar e dormir esperando o diferente. postado por: HENRIQUE ROJAS 3:04 PM
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