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O som das letras
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Textos. Apenas textos escritos por música. A música das letras. Comments: Terça-feira, Março 29, 2005 TRATO É TRATO - Par! - Ímpar! - Caralho, Deus, você sempre ganha... - Olha a boca, Beuzebú! - "Olha a boca" o cacete. Não vem com esse papo de carola... toma mais um whisky aí, Todo Poderoso. - Você sabe que eu não bebo, Lúcifer. - Puta que pariu, hein Jeová! Você já foi melhor. Lembra quando tudo era purgatório? - Isso faz tempo, Diabo, já separamos o joio do trigo há séculos... - Joio e trigo de cú é rola, Barba! Lá tinha de tudo: santo, pecador, aliás, pecadoras... - Mas agora tudo mudou, Chifrudo: santos aqui, pecadores aí. - Ah, fala a verdade, Senhor, aquela mistura é que era o bicho! As santinhas com os pecadores, os santos com as atiradas... diversão pura! - Todavia aquilo acabou, Enxofre. Agora é ou Céu, ou Inferno. E purgatório, pra quem quer recorrer da decisão. - Você, hein, Javé... acabou com aquela putaria! - Não tem discussão, ô do tridente: foi pra isso que criamos a Terra. postado por: HENRIQUE ROJAS 5:19 PM Comments: DIA DE FÚRIA Glória sempre foi Glória. Baixinha, gordinha, óculos, bochechas rosadas e sorriso fácil. Uma mãezona mesmo. Na empresa chamavam ela de "mãe", contavam suas dores pra ela, esperavam um abraço. Sua mesa era cheia de fotos, com tudo organizadinho: bloquinhos de nota de um lado, caneca com canetas do outro, canequinha com lápis do lado dos bloquinhos. Um brinco! Mas chegou o dia que todos temiam: Glória acordou atrasada porque o despertador não a acordou. Foi tomar banho, só tinha água fria. Café da manhã sem café, o maridão tinha tomado tudo. Trânsito parado, um motoboy levou seu retrovisor, não tinha lugar no estacionamento... Aí era demais, "Mãe" não tinha sangue de barata! Chega! Acabou! Não mais! Glória entrou quietinha, sentou na sua mesa e tomou uma decisão doída, maluca,q ue só em casos extremos faria: tirou as canetas da caneca. postado por: HENRIQUE ROJAS 4:30 PM Comments: Terça-feira, Março 22, 2005 O FEITIÇO DO ELEVADOR Ninguém sabe o que é, daonde vem, nem como acontece. Só sabem que existe. Não estou falando de cabeça de bacalhau, enterro de anão, nem cunhado com foto da sogra na carteira: estou falando sobre o Feitiço do Elevador. Quando as pessoas entram em um elevador com outras pessoas desconhecidas é inevitável: todos olham para o teto ou para o chão. Nunca para frente, dificilmente para o espelho, arduamente de lado. É para os hemisférios, sempre. Norte e Sul, céu e inferno, cima e baixo, branco e preto. Reza a lenda que isso ocorre por causa dele, do Feitiço. Muitos duvidam, dizem que isso ocorre por vergonha ou por algo anti-social mesmo; mas eu discordo. Já vi muita gente pra lá de extrovertida cair no Feitiço. Não existe explicação lógica, nem razão pata tal acontecer. É o Feitiço do Elevador. Observem. Eu respeito. postado por: HENRIQUE ROJAS 6:35 PM Comments: Terça-feira, Março 01, 2005 SHOW DA VIDA Um, dois, três limões. O garoto mulato era bom nos malabares. Enquanto jogava aquele trio de esferas esverdeadas para o ar, abria um sorriso fácil e fazia com que mesmo os motoristas mais carrancudos parassem um pouco de praguejar. Ao final do show, passava as mãozinhas negras por entre os automóveis buscando alguns centavos. Uns davam, outros não. Mesmo reconhecendo a habilidade do pequeno, alguns pensavam "Que comida nada, vai é beber, cheirar cola", outros achavam que melhor era não dar nada pois a grana era para um explorador de menores. Mas quem lhe dava algumas moedas, se sentia bem, como se tivesse salvado o mundo com 25 centavos. E o garoto, com aquele sorriso branco e maroto agradecia a todos. Ainda que o que desejasse fosse alguns poucos aplausos. postado por: HENRIQUE ROJAS 11:50 AM Comments: MENDONÇAS Mendonça morreu. Engenheiro casado, 53 anos, dois filhos, era Fluminense e tinha um escritório no centro. Sempre comedido e calculista, Mendonça levara a vida que sempre levou. Acordava as 5:30h, lia o jornal tomando café, comia dois ou três biscoitos e ia trabalhar - "vai disser que Deus não ajuda quem cedo madruga?", alertava sempre. Chegava as 7 da manhã, mesmo que ninguém o visitasse ou telefonasse antes das nove. "Vai que alguém liga", dizia ele. Almoçava sempre na padaria em frente ao escritório, onde pouco variava o cardápio. Comia em meia hora e voltava para sua mesa - "Vai que alguém só pode ligar na hora do almoço", dizia ele. Então, quando dava o horário, fechava o escritório e fazia cerão até tarde - "Negócios são assim, a oportunidade pode surgir a qualquer hora. Vai saber", estava na ponta da língua. Chegava em casa tarde, cansado, comia uma coisinha, olhava os filhos na cama e ia para sua - onde sua esposa também já pegava no sono. E assim foi por anos e anos. Até ontem. Teve um ataque cardíaco fulminante. No velório todos, mesmo que disfarçadamente, pensavam a mesma coisa. Como podia, um homem que pensava tanto nos outros não se dar o menor cuidado. "Vai que ele descobre que sua vida que era uma merda", pensou o coveiro, acostumado com aquilo todo dia. postado por: HENRIQUE ROJAS 11:50 AM
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