O som das letras

Textos. Apenas textos escritos por música. A música das letras.



Comments: Quinta-feira, Fevereiro 24, 2005

MECÂNICO

Acordou por acordar. Se vestiu por se vestir. Tomou café só por tomar e leu o jornal simplesmente por ler. Entrou no carro por falta de opção, ligou o rádio por ligar e simplesmente rumou para o trabalho por hábito.
A vida de Alberto agora era assim. Nada mais lhe dava ânimo, nada o excitava, nada o fazia sorrir. Chegou pontualmente as 8:30h, fez seus relatórios diários, saiu para almoçar as 12:30h, e voltou uma hora depois. E voltou aos relatórios até as 17h. Fechou a gaveta, desligou o computador e novamente foi para o carro por ir. Rumando por rumar.
No trânsito buzinou por buzinar, xingou pior xingar e pensou porque não havia nada mais que o entretesse no engarrafamento. De repente um carro parou ao seu lado e, do banco traseiro, um garotinho sorriu para ele. Finalmente Alberto sorriu.
Mas, pasmem!, sorriu por sorrir.

postado por: HENRIQUE ROJAS 2:51 PM


Comments: Quarta-feira, Fevereiro 23, 2005

CHEIO DE SI

Acordou. Com os olhos semi cerrados por causa da claridade, demorou a conseguir identificar onde estava. O sol era forte, o calor era nigeriano e a fome era somaliana.
Devagar foi reconhecendo o que estava a sua volta. Um coqueiro (em que estava apoiado), um pouco de areia e muita, mas muita(!) água. Não era sonho: estava em uma ilha deserta.
Foi até o mar, olhou na água e percebeu que estava com barba e olheiras profundas. Levantou os trapos que estava usando para checar se o fígado e os rins estavam mesmo lá - vai que aquela história de que uma gangue estava capturando pessoas, tirando seus órgãos e deixando-as em banheiras com gelo era verdade? Nada disso. Aliás, o que menos tinha ali era gelo.
Subiu no coqueiro, empurrou o único e solitário côco para o chão. Aproveitou para checar o horizonte. Nada. Começou até a entender porque antigamente achavam que a Terra era quadrada.
Desceu ao montinho de terra a que estava preso e olhou o côco. O côco olhou pra ele. Ele não tinha um facão. Bateu então aquela dura casca na árvore. Nada. Quicou na areia. Nada. Deu um soco. Dessa vez sim algo aconteceu: quebrou dois dedos. Mas nada de abrir o côco. Chutou, deu cabeçadas, mordeu... nada.
Então começou a rir. Aquele riso incontrolável, que define o abdômen e tira o fôlego. Riu, riu, riu.
Então parou. Com os olhos marejados, abriu aquele sorriso de canto de boca, digno apenas dos sábios, e olhou novamente para o horizonte. Sabia a resposta para um dos maiores enigmas da humanidade.
Finalmente sabia o que iria levar para uma ilha deserta.

postado por: HENRIQUE ROJAS 2:20 PM


Comments: Terça-feira, Fevereiro 22, 2005

DITADOS POPULARES

Dizem que a voz do povo é a voz de Deus.
Mas toda unânimidade é burra e as aparências enganam, ainda que a união faça a força.
Todavia, a esperança é a última que morre e, antes tarde do que nunca, é melhor estar só do que mal acompanhado - ainda que seja melhor um cachorro amigo que um amigo cachorro e também levando em conta que cão que ladra não morde.
Ainda que em casa de ferreiro o espeto seja de pau e que burro velho não perca a mania. Afinal, burro carregado de livros é doutor e besteira pouca é bobagem. Isso sem esquecer que o homem prevenido vale por dois e que hoje é por mim, amanhã por ti. Sabe como é: homem pequenino, malandro velhaco ou dançarino.
Contudo, como se correr o bicho pega, e se ficar o bicho come, vamos admitir que pau que nasce torto, morre torto.

É como dizia minha vó, se os "ses" fossem feijão ninguém morria de fome!

postado por: HENRIQUE ROJAS 5:15 PM


Comments: DOCE INFÂNCIA

Recebeu a bola. Driblou um, dois, três. O goleiro saiu como um gato a procura da bola de lã. E ele fintou novamente, colocando a bola no fundo da rede.
Era o terceiro da noite, o que os ingleses chamam de hat-trick. E, dessa vez, o garoto deu um peixinho no gramado molhado, abraçando todos os outros companheiros. A torcida aplaudia de pé, seu pai o assistia pela TV e um refletor o acompanhava em campo, assim como em um show de ballet.
O locutor não poupava elogios: "Rodolfo, camisa 10! Mais 3 em sua conta, artilheiro do campeonato com mais de vinte tentos marcados!!!".
E então sua caneta caiu no chão e ele abriu os olhos. É, estava mesmo no escritório. Cadeira acolchoada, computador de última geração, delegando trabalhos e serviços, tranqüilo, bem de vida. Tinha família, dinheiro, saúde... mas sentia falta dos gols da infância.
O estádio era um terreno baldio. Os adversários eram imaginários. O gramado molhada era lama e os companheiros não passavam de mosquitos. A torcida eram gatos vira-latas e o locutor falava apenas em seu ouvido. A bola? Nem ela era ela.
Mas era bom.
E ele fechou novamente os olhos, e, ao marcar o 4º gol da noite, rodou a camisa no ar. Era a gravata.

postado por: HENRIQUE ROJAS 4:50 PM



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